Rafael Tonon mostra os recentes
movimentos e mudanças que impactaram
na forma como nos alimentamos

Como as rãs, que aparecem ao final do livro “As Revoluções da Comida”, o jornalista Rafael Tonon vai pulando entre assuntos que impactam quem trabalha com comida e quem come. Todos nós.

Os saltos levam o leitor para várias revoluções, lugares e tempos da nossa história alimentar. Apesar de as páginas estarem recheadas de informações de pesquisas, inclusive científicas, e de entrevistas com personalidades, lemos facilmente e com surpresa conteúdos que nos afetam, como a extinção de cinco centenas de espécies pelo Bd, como é chamado o superfungo Batrachochytrium dendrobatidis, que dizima sapos, rãs e pererecas.

“A pior enfermidade selvagem de todos os tempos”, escreve Tonon, amparado pelos trabalhos de biólogos e especialistas em herpetologia apresentados em congressos. Uma força-tarefa  internacional foi criada para entender como a doença era identificada na Coreia do Sul e também na Mata Atlântica brasileira, conta o autor. O comércio intercontinental dessas espécies que são transportadas para uso na medicina ou para nos servirem de aperitivo no boteco ou, ainda, na versão francesa de rãs à provençal, tenta explicar o sumiço dos anfíbios.

Nossa conversa foi regada a café, evitou o animal, com uma distância segura devido à pandemia: eu na minha casa em Curitiba; ele, na cidade do Porto, em Portugal, onde mora com a mulher há
quase três anos e consolida uma carreira internacional – escreve para vários veículos do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos. Sem filhos, nem cachorros, dedica-se exclusivamente ao jornalismo especializado em comida, e não gastronomia, porque vai além de escrever sobre chefs e restaurantes.

O cara que come de tudo profissionalmente – desde que justificado pelo contexto histórico cultural – já enfrentou pratos difíceis: um feto humano feito de gelatina e um preservativo comestível oferecidos durante um simpósio sobre Tecnologia de Alimentos. Em casa, é um cozinheiro prático que gosta de massas e não suporta fígado de boi.

A entrada nessa área foi por acaso. Editor de uma revista, há mais ou menos 10 anos, não encontrou ninguém para assumir a parte que, não sabia, lhe despertaria paixão e deixaria o crítico de
cinema adormecer. Agora, dividir a sala de projeção escura com uma plateia emociona tanto quanto, por exemplo, uma refeição no restaurante Mugaritz, em San Sebastian, no País Basco, que
mereceu destaque no livro.

OUTROS CAPÍTULOS

O maior desafio para o autor era encontrar uma linguagem simples que amarrasse os capítulos, com várias histórias se cruzando, como uma longa reportagem. Consegue. Prolonguei a leitura, afinal seria injusto terminar em quatro horas o que levou quatros anos para ser escrito.

No menu do livro, o couvert destrincha rapidamente o que desconfiamos: estamos mesmo obcecados por comida, ou pelo menos uma fatia expressiva da população, principalmente a geração dos millennials que, a partir do que comem, se posicionam no mundo. “Fomos acometidos pelo foodismo, um tipo de enfermidade aguda”, escreve.

Nos sete capítulos que formam a obra, o apetite é aguçado: Carpaccio de cérebro; Tomate quilômetro zero; Mamilo de ostras; Arroz solitário; Carneplástico; e o já comentado Rãs à quitrídio, além daquele que abre a obra e fala da criação e do sucesso do Big Mac – o “Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim” (a ideia inicial do livro era sobre os
50 anos da empresa). Parece que somos conduzidos pela mão, pois somos tomados de espanto pela maioria dos títulos e conteúdos.

Do molho de tomate que é processado na Itália, porém com a fruta plantada na China e depois reexportado para viajar quase 10 mil quilômetros até chegar ao Brasil, aos cientistas que trabalham no desenvolvimento da comida encapsulada ou das barras proteicas criadas para facilitar nossas refeições, são explorados temas impactantes.

Distante da modernidade e bastante atual, o autor mostra como os grupos de consumo coletivo funcionam promovendo a estabilidade dos produtores e a história de dois irmãos que produzem laranjas orgânicas em Valência. Eles negociaram o produto online com interessados que se tornaram sócios, ajudando a viabilizar o empreendimento. Poderíamos comemorar muito se ainda não fosse um nicho para poucos.

A transformação do “caldo restaurador para enfermos”, que deu nome ao que conhecemos como “restaurante”, e o funcionamento das fazendas ultramodernas e urbanas também são abordados. Questionado sobre o sabor, Tonon justifica a iniciativa pelo frescor e baixo custo porque são produzidas em cima do mercado onde é vendido.

Outro destaque no livro é sobre as pessoas que comem sozinhas, a influência das redes sociais, com o fenômeno dos vídeos do movimento chamado mukbang, quando comem e filmam interagindo com a plateia.

Superar as limitações do nosso corpo pelo uso da biotecnologia e da Inteligência Artificial aparece e nós vamos nos servindo de informações como em um menu-degustação feito para pensar.  Privilégio.

Já havia me surpreendido com a reportagem escrita pelo jornalista e publicada na revista Piauí, há quase um ano, “O Vírus está no Prato – A relação entre zoonoses fatais e os animais que comemos”. O livro amplia o assunto, vai além e talvez, concorda Tonon, pudesse ganhar mais um ou dois capítulos. Quem sabe, aprofundar o problema da fome e do desperdício, provoco.

E o maior desejo do jornalista com a obra é inspirar as pessoas a “digerir nossas escolhas alimentares com consciência. É preciso falar da origem do alimento e as pessoas não estão muito cientes ou não querem estar”. Permitindo-se, assim, revelar-se um pouco. “A próxima revolução deve ser uma tomada de consciência e uma aproximação com a natureza”, profetiza. “Principalmente pelos desastres ambientais que estamos vendo”, conclui.

AS REVOLUÇÕES DA COMIDA
Editora Todavia
Autor: Rafael Tono

 

 

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