Abro o Per Se, único vinho branco da Oldenburg que trouxe na mala da África do Sul, produzido nas encostas de Rondekop, uma colina cônica de solo rochoso, para dividir com uma amiga.
Era um domingo gelado e um prato de bacalhau nos acompanharia. Fazia tempo que não nos víamos. A conversa, a comida e a bebida estavam sincronizados; falávamos sobre o futuro. Quando ela saiu, me peguei olhando para o rótulo: um desenho de traços fininhos em preto e branco estampavam a paisagem do lugar.
Voltei imediatamente aos dias passados ali. A vinificação artesanal de Nic van Aarde produz uma bebida equilibrada e complexa (ao mesmo tempo) que me atrai.

(Foto: Arquivo Pessoal)
Achei Stellenbosch, a cidadezinha perto de Cape Town onde comprei o vinho, um cenário de filme. Fiquei impressionada: casas brancas, ruas limpas e as encostas com parreirais a perder de vista. Montanhas enormes cercando hoteis em construções centenárias. Vinícolas impecáveis, vinhos impecáveis. Um mundo quase irreal.
Ignorava que tudo isso camuflava a história de um projeto colonial de ocupação e hierarquização racial. O Museu do Apartheid, em Joanesburgo, te chacoalha, mas ali parecia estar longe dessa realidade. Imaginei, ingenuamente, que aquele lugar tivesse ficado isolado do movimento que ainda hoje nos assusta.
Sabia que a cidade fora construída principalmente por protestantes da Holanda e da França expulsos da sua terra. Caminhei para ver de perto o marco da cidade, que aparece em todo material de divulgação. O museu ao lado estava fechado. Curiosidade em alerta.
Huguenotes
Também fiquei intrigada, como aquele pedaço de terra protegido pelas montanhas foi escolhido por eles? A primeira pista: os protestantes calvinistas perseguidos entre os séculos XVI e XVII, chamados huguenotes, precisaram fugir da Europa.
A Companhia Holandesa das Índias Orientais, que controlava a região, incentivou a migração de mão de obra especializada para desenvolver a agricultura. Daí a explicação para a produção de vinho que floresceu ali. Stellenbosch, fundada em 1679 por Simon van der Stel, tornou-se assim um dos centros da elite agrária branca.
Aprendo que os países protestantes são os primeiros a entrar na exploração sistemática do trabalho. E que ali, por meio de professores universitários, nasce o sistema de segregação do negro em sua própria terra. Eu não poderia imaginar.

(Foto: Arquivo Pessoal)
A University of Stellenbosch, fundada em 1918, abrigou os Afrikaners, brancos descendentes dos europeus nascidos no país. Foram eles que formularam a teoria e a estrutura jurídica do Apartheid, resultado de um longo processo de séculos, iniciado ainda com povos escravizados trazidos da Índia e de outras regiões. Já no séculos XVII havia leis raciais restritivas de circulação, posse de terras e convivência.
Em qualquer lugar, com qualquer governo
Com a expansão britânica, os Afrikaners se deslocam para o interior, e o racismo transforma-se em política agrária. Passam a vigorar leis que controlavam a circulação de negros, zonas urbanas exclusivas para brancos, áreas rurais reservadas. Acompanho esses processos na autobiografia de Mandela (o livro mais uma vez me revela detalhes).
É aí que entra a elite intelectual de Stellenbosch com as teorias de “pureza racial”, que se transformarão em política de Estado. No século XIX, com a ascensão do Partido Nacional, o sistema tornou-se explícito: escolas separadas, bairros segregados e classificação racial obrigatória. A intenção era garantir mão de obra barata e proteger o poder econômico dos brancos. Há vasta bibliografia sobre isso.
A mesma cidade que hoje é um paraíso vinícola gestou um sistema de exclusão racial que nos envergonha.
Fui chacoalhada
Em outro domingo, depois da meditação, e de uma mordida da minha gata, que não sabe controlar o afeto (como nós), escolhi o podcast Isso te diz alguma coisa? pra acompanhar o café da manhã. O convidado era o filósofo, músico e professor Vladimir Safatle, que me deu o chacoalhão para acordar de fato.
O Apartheid não foi apenas um regime político, mas uma forma de pensar o mundo, uma lógica que não se restringe apenas à África do Sul. É uma estratégia de manutenção do status quo: a ideia de que não existe lugar para todos.
Acontece no Brasil também, uma sociedade pós-colonial organizada pela exclusão, aqui não formalizada como Apartheid. E seguimos capengando, aos tropeços, como se não houvesse saída. Mas existe um futuro possível? Tudo é complexo, não apenas o vinho.
Os vinhos despidos
Falar do vinho de lá abre outra aba aqui, ou seria garrafa? Várias foram abertas no fim de semana em Curitiba que acolheu a Nua, a feira de vinhos naturais.
Antes da feira, em um “esquenta”, o Lucas Moisés (do Empório Madá) me apresentou um Riesling Renano da Monte Astral. Ele hipnotiza a gente com suas explicações. O vinho era perfumado (um profissional diria aromático). Porém, por mais que ele se desdobrasse em provocar revelações (usando sempre brincos que quero pra mim), eu sentia um aroma de fruta sem saber qual exatamente.
Com a garrafa nas mãos, rodei pra ver o contrarrótulo e li: “Dagaz”. Dagaz é uma runa, descubro. Leio: “As runas simbolizam os mistérios da caminhada de evolução no planeta… um novo começo. É preciso coragem para abrir mão das ilusões e realizar as mudanças necessárias para se tornar quem se é”. E eu não sei? Caiu como uma luva, o vinho e a previsão da runa.
Do Monte Astral, passo ao Wally. “Ele é piloto de avião e faz vinho no apartamento”. Com essa apresentação, como não conhecê-lo? Vitor Wally confirmou a história rindo, “foi o começo”. Hoje já tem sua vinícola no Rio Grande do Sul. Antes de produzir, estudou e pesquisou a viabilidade do cultivo orgânico e se encantou.
Procuro as informações mais uma vez: “Cada garrafa traz a pura expressão da natureza, com aromas e sabores únicos”. Confirmo, é verdade. E outra coisa me chama atenção: estou com a garrafa número 56 de 300. Comprei as duas últimas, privilégio escorrendo na veia.
Provei e me surpreendi. Um vinho intenso, com apenas 12% de álcool. Mais feliz fiquei ao ler os ingredientes da composição (isso logo será obrigatório): apenas leveduras selvagens, sem adição de sulfitos etc. Não me canso de agradecer ao Wally. E digo, por favor, continue a vinificar. O mundo merece provar o que você faz.
Nua
Um outro Lucas, o Olivella, criador da feira, me fez entrar na sua história de ex-advogado que tinha parado de beber vinho porque fazia mal, até que a Lis Cereja (da feira Naturebas) lhe apresentou um natural. Atravessando seus olhos, vi seu sítio, o início do trabalho, a virada de chave na vida. Então decidiu que todo mundo precisava conhecer os vinhos naturais. Criou a Nua. E como não ser feliz com essa proposta?
Lucas define a feira como “uma oportunidade de provar vinhos de mínima intervenção e biodinâmicos diretamente dos produtores”. Começou em Florianópolis em 2024 e chegou a Curitiba agora em novembro.
Gostei de outros rótulos e histórias, como a do francês casado com uma carioca que foi morar no interior do Rio Grande do Sul depois de tentar fazer vinho na Índia. Imaginei o mapa, o périplo. Adicionou ao desafio a produção de queijos de ovelha. Quero voltar aos seus vinhos; os queijos eu já devorei. Devorei também os do Chico Queijos, que também estava na feira.
Espero que os produtores consigam vender suas bebidas por aqui, embora todos (acho) vendam pela Internet. Gostei dos vinhos das meninas da Casa Vicca, entre outros. Fiquei triste porque não falei com elas e com a dupla de agrônomos, Sabrina Sautchuk e Fábio Serini Castro, da Desavinados, parceiros do Olivella, na realização da feira em Curitiba.
O vinho natural é um sonho possível
Dagaz foi parar na taça traduzindo em esperança. E se a intenção da feira é privilegiar a relação entre o campo e a taça, ela também precisaria ser especial e era. As taças de prova eram de cristal da Tanyno Glass, fundamental para completar a experiência sensorial (escrevi em outra coluna sobre o trabalho deles). Um cuidado desses, para quem foi à feira, já diz tudo sobre a proposta.
Em casa, tive problema com o meu Coravin (que tira o vinho sem tirar a rolha). A solução foi a tradicional. Quando olhei a rolha subindo e a paisagem, pássaros, montanhas e pinheiros gravados na cortiça aparecendo, pensei no capricho. Só um apaixonado faria isso.
O poema da semana
O poema da semana é dedicado a Vitor Wally, Lucas Olivella, todos os produtores de vinhos naturais e, principalmente, à visionária Malu Meyer, proprietária da Soma People & Culture, que se preocupou em ampliar nossos repertórios e abrigou a feira.
James Mercer Langston Hughes, poeta e ativista norte-americano, figura central do movimento artístico do Harlem, em Nova York, colocou a produção cultural negra em evidência a partir do início do século XIX. Natural e potente na essência. Verdadeiro, como os vinhos da Feira Nua.
“Hold fast to dreams, for if dreams die / life is a broken-winged bird that cannot fly.” (Dreams, 1922)
(Apegue-se aos seus sonhos, pois, se os sonhos morrerem, a vida é um pássaro de asas quebradas que não pode voar).