Fui respirar e sentir a força de uma orixá
Escolhi a casa/hotel Oyá, na Bahia, pela comida. Procurei o significado do nome. Na tradição iorubá, da África Ocidental, Oyá é um orixá poderoso associado a ventos, tempestades, transformações e mudanças bruscas. Uma divindade guerreira.
No Brasil, Oyá é Iansã, companheira de Xangô. Ela também representa a coragem e o poder feminino indomável – uma inspiração e força para iniciar o ano (depois do meu aniversário e mesmo que seja estejamos em março). Comecei a escrever a coluna no Dia das Mulheres e, diante de algumas conquistas, muitas ainda estão longe de serem alcançadas, não sei o que comemorar. Não quero flores, quero respeito.

Deve ter sido a força de Oyá que fez chover em quase todos os dias em que passei à beira mar. Há quatro anos, pode ter dado impulso ao casal carioca para deixar o Rio de Janeiro e mudar-se em definitivo para a praia de Algodões, na Península de Maraú. Estando lá, entendi o nome do empreendimento: é mais casa do que hotel. Não tem recepção. Uma pequena varanda, com um espaço coberto que pode avançar pelo jardim caso venham convidados das redondezas, é a única área para as refeições.
São cinco casas, todas brancas, com detalhes em azul, onde se vê bom gosto sem afetação. Pedidos, check in, check out e pagamentos são feitos pelo whatsapp. Uma lojinha mínima, que parece de brinquedo, acolhe interessados em levar uma lembrança do local.
Ao natural

Todas as manhãs, eu abria a metade de cima da porta de madeira pintada de azul e olhava para as folhagens do jardim, bem cuidado, antes de fechar os olhos para meditar. Uma música baixinha e o vento fresco eram a companhia no café da manhã. O “bom dia” vinha com um suco verde.
Depois, a escolha difícil da bebida para acompanhar o café da manhã. O preferido era de caju e mel de cacau. Quase impossível ignorar o de gengibre com manga colhida das árvores do quintal. Era o primeiro dilema do dia. Bom seria se todos fossem assim.

Frutas frescas abriam o apetite. Seguia-se com pequenas delicadezas servidas em potinhos, como o iogurte com granola caseira. O desjejum incluía pães, ovos e tapiocas. Somente o essencial, não entendo a moda de mesas fartas, com bolos duvidosos e itens dispensáveis logo cedo nos hotéis. Fran, Joel e João tinham sorriso no rosto e respondiam com um “pronto” ou “agora” a cada pedido, como os baianos costumam dizer.
É mesmo um pouso secreto e um presente ao paladar. Xairon Misaki cozinha copiosamente. Parabéns igualmente para toda equipe, que, mesmo na ausência dele, mantinham o padrão. Tem força o rapaz. Sabe o tempero. A sofisticação é simples e vem do ingrediente. Parece discurso, ali é condição. Coincidência ou não, conheci outro cozinheiro na Bahia de nome diferente: Kaywa Hilton (falarei dele). E posso repetir o que atribuí ao Xairon. Ambos nasceram em uma comunidade no interior de Minas Gerais. Uma comunidade alternativa na mata mineira? Não imaginava. Reflexos do Vale do Matutu espalham talento genuíno.



Cumpro promessas
Inaugurei meu caderno de escrever, com capa de tecido rugoso, inspirada nos “Contos completos”, de Lima Barreto. Resolvi anotar palavras desconhecidas com a intenção de não esquecê-las. Um dicionário particular. Lendo o livro, vejo que meu vocabulário empobreceu. E a letra caprichada resiste.
Saio da realidade, me encho de devaneios, deixo a brisa levantar a saia rodada e saracotear meu cabelo de um lado para outro lado. Piso em corais, comuns no litoral baiano (ui, corto o pé). Sinto perfumes.

A calmaria das águas, para o mergulho há anos adiado que tanto queria, não encontrei. As chuvas e Oyá se encarregaram de deixar o mar ansioso. Nunca tinha visto um enviesado. A onda vinha e estourava na praia para um lado, ao mesmo tempo, a outra metade dela ia em direção contrária. Parecia que nasceram juntas e resolveram se separar. Mas havia aquelas que não se desgrudavam. Nasciam e morriam juntas, desapareciam na beira da praia como um sonho desfeito.
Era um mar crespo. Ondas de espumas brancas brilhavam bem lá longe. Tem alguma coisa no horizonte no fim do mar que não consigo ver. Seria outra cidade? Meu olhar não alcança. Sonhava com um mar calmo, mas nem me importei com a sua braveza. Nem senti falta do sol que custou a aparecer. Andei muito, pés descalços, pisando firme na areia até chegar aonde ninguém ia. E gostei da garoa fina que aliviava o calor e molhava aos poucos, como se tivesse que pedir licença para tocar a pele.

Na andança, visito outro restaurante. Aceito a oferta do suco de mel de cacau. O barulho que vem da cozinha desvia minha atenção. A faca batia seca na tábua, picando a cebola, o pimentão e os temperos para a moqueca, e o eco revelava tristeza. Só dois gatos famintos rondaram a mesa querendo experimentar. Não valia a pena.
Nesses dias, me permiti desacelerar sem culpa. Reencontrei a prática da ioga embaixo da sombra das árvores. O céu está dentro. Recebo a ajuda necessária para lembrar disso mais uma vez (obrigada, Fábio).
Não ter espelho de aumento, nem iluminação forte no banheiro, me deixou tranquila. Longe das imperfeições do tempo, esqueço da vaidade que me atrapalha e quero abandonar. O que em mim está cansado não é o que em mim quer continuar.
Fiquei com uma frase de Lima Barreto na cabeça, “o amor não tinha prefácios, nem epílogos, o assunto ataca-se logo”. Queria ter escrito ela. Amor direto ao ponto é que faz tremer.