Riqueza, para o teórico econômico Adam Smith, (ele se denominava filósofo), era a condição de uma nação na qual as camadas mais baixas da população tivessem acesso não apenas aos bens necessários à vida, mas também ao lazer e à diversão.
“A mão invisível”, a ideia de um Estado em equilíbrio e eficiência espontâneos, talvez seja a sua teoria mais lembrada. Eu exploraria outra: a “Teoria dos sentimentos morais”. Pode soar estranho evocá-lo, mas a leitura provocou a lembrança do poeta Bertolt Brecht: “Primeiro vem a comida, depois a moral”.
Smith desenvolveu suas ideias sobre economia há 250 anos e continua atual, por isso a reverência ao seu nome e trabalho mundo afora. Confesso não entender do tema tanto quanto gostaria. Escondo o diploma de economista, um dos muitos erros que cometi na vida.
Aqui, ele abriu a coluna e, apesar de querer, não pretendo me aprofundar. Gostaria de estudar as motivações humanas, uma das suas propostas. Essas me interessam mais.
Mudanças
Por que mudamos? Pergunto-me.
A resposta talvez esteja na história da formação de uma propriedade agroflorestal que me reconecta às ideias do escocês e do alemão. Ou melhor, na história de um casal.
Esqueço as guerras e as desigualdades por um instante. Mas não esqueço do açaí batido puro e do adoçado com banana que Marisa Fukuda serviu após a visita ao Sítio do Outeiro. Ao experimentar o da esquina de casa, percebo a distância. A fruta saída direto da floresta tem outro sabor. A cada colherada, vejo a árvore de tronco esguio que quer alcançar o céu e a dificuldade para extrair a polpa. Fixo o olhar na agroecologia, especificamente nesse pedaço de terra (meio) isolado na Bahia que conheci e reverbera em mim.
Entro com a Marisa na mata. Ela conta, em passos demorados, como chegaram ali. Tudo está silencioso. Alcançamos um clarão e sentamos no banco escorado em uma velha prancha de surf. Passado alguns minutos, sou tocada por sons e cheiros. Recordo do líder indígena e ambientalista Ailton Krenak: é preciso pedir licença para entrar no espaço da natureza.
O casal, sem filhos, tem a sorte de ter um sobrinho como herdeiro. Agora, sobra tempo até para ela estudar os pássaros e para Márcio, o “seu Karma”, companheiro de 39 anos, produzir arte com matéria orgânica. Sem sentir falta da cidade, raramente viajam, talvez estejam gestando um futuro Inhotim, o museu mineiro a céu aberto.
Começo
Chegaram à Península de Maraú nas férias de 1989, quando “não existia nem posto de gasolina na região”. Numa das várias visitas, uma no dia do ataque terrorista às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, 11 de setembro de 2001, veio a intenção de trocar a “vida arrumadinha em Petrópolis”, no Rio de Janeiro, pelo morro que estava à venda.
Karma, que deu a volta ao mundo aos 30 anos, foi campeão de asa-delta, aos 73 anos ainda surfa e pratica ioga, planeja chegar aos 100 anos. Quando criança, não imaginava que o encanto provocado por um tio fazendeiro no Norte do Paraná, seria o impulso subjetivo para que ele se tornasse, décadas depois, um “pequeno fazendeiro” agroflorestal. “O destino foi bom comigo”.
Mimetizado com a terra do estreito dos Algodões, onde o oceano chega mais perto da Baía de Camamu, ele projeta um ateliê na outra ponta do terreno para criar e ver o pôr do sol. Cresceu entre arte, influência da família que traz a artista plástica Lygia Clark na árvore genealógica.
“A gente gosta de plantar, mas nem gostava de açaí”, confessa a zootecnista, que aceitou mudas em pagamento por um trabalho e viu a vida lentamente tomar outro rumo. Hoje, o fruto é a principal renda da família. Nos dez hectares intocados, convivem estufas de plantas, tanques para peixes e as flores tropicais – segunda atividade do sítio do Outeiro, e ainda um “pouco de tudo”: jaca, banana, cacau, abacaxi e açaí, claro.
“Os antigos falavam que morávamos no ‘otchero’, virou Outeiro”. Encontro no latim altarîu, altar, uma explicação do nome que me satisfaz mais, vivem ali em simbiose natural, reverenciam e respeitam a natureza como todos nós deveríamos fazer.
Naquela terra, as coisas acontecem como deveriam ser. Nada de veneno, nada de tirar as formigas do seu caminho. Andam em procissão com pedacinhos de folha na cabeça. Fazia tempo que eu não via isso. Pisei em um espaço intocado e produtivo e provei o melhor e mais puro açaí da vida.
Receita passada adiante
A mesa, a partilha e o modo como plantamos ou cozinhamos revelam as estruturas invisíveis da sociedade. O cotidiano guarda uma história inteira feita por todos nós. É o trabalho e o alimento que sustentam o mundo. Brecht continua ecoando.
Prolongo minhas lembranças com a ajuda de Marisa. Peço, pelo Instagram, uma receita. Ela escolheu o “Cream cheese de castanha de caju”, que comprei e esqueci na Bahia. Ela compartilhou comigo e eu com vocês.
Cream cheese de castanha de caju
Ingredientes:
120g castanha de caju;
20ml vinagre de maçã;
20 ml de suco de limão;
40 ml de água;
Sal a gosto.
Preparo:
Deixe as castanhas de molho por 12 horas;
Lave bem e escorra;
Use um liquidificador de baixa rotação (faz toda a diferença);
Bata as castanhas com o vinagre, o suco de limão, a água e o sal por uns 2 minutos;
Uma espátula de silicone tipo “pão duro”, vai ajudar muito para limpar a parede do liquidificador durante o processo e depois de pronto;
Guarde na geladeira por até 10 dias;