Entre ritos xamânicos e o banquete do Ano Novo Chinês, uma travessia sobre curas femininas
Pulam assuntos na minha frente e não sei por onde começar. O “cavalo de fogo” deve ser o responsável. Vinho era o tema anteriormente escolhido. Mas deixo de lado e abro o jornal. A “imersão mulher xamânica” no feriado de carnaval também ainda ressoa. É por aí que devo seguir e me expor?
Sou confortada pelo escritor Édouard Louis, que por sua vez questiona o filósofo Gilles Deleuze. “As escritas de si estão aí para ocupar a história literária”. Conto com outra ajuda, um texto de Tatiana Salem Levy sobre “Da vida nas ruas ao teto dos livros”, de Clarice Fortunato. Mais autoral impossível, Clarice expõe no papel a vida dura que levou antes de alcançar o doutorado na Inglaterra, e não sei se terei coragem de ler. A dúvida do começo deste texto não me abandona. Decido falar sobre as mulheres.
Na “imersão” escutei histórias de abusos e abandonos que misturadas com as minhas trazem a certeza de que precisamos sair de nós mesmas para nos entendermos. Olhar para fora, mas também para dentro. Histórias de mulheres sofridas nas quais o fantástico serve para dar forma ao indizível que aplaca a violência. As “medicinas”, como as substâncias sagradas são chamadas, são uma maneira de simbolizar e de sermos acolhidas por meio delas. O fantástico é o único recurso para entender as complexidades da vida adulta.
Vou devagar e antes de uma prática espiritual ancestral (rapé, ayahuasca ou wachuma) acredito em um caminho mais palatável. Aceito facilmente o processo de colocar palavras nos traumas de forma sistemática e orientada. Além da psicanálise, aperto o botão de reset com meditação.
O peso da bagagem
Raul, o adonis que me salvou de ficar horas no sol sentada em cima da mala ou de uma possível abordagem inconveniente à beira da estrada, antes do retiro, reforça a tese. Me contou que, certa vez, ao subir o morro e olhar o sítio pequeno e distante onde morava e se debatia com vários problemas, entendeu que a vida é maior. É preciso se deslocar para ver e entender.
A minha experiência até entraria em “Que história é essa, Porchat?”. Tenho maratonado os programas no YouTube do ator para quebrar a seriedade com que encaro tudo. Raul me ajudou com a pesada bagagem e caminhamos juntos cerca de dois quilômetros sob o sol de Campo Largo (imaginando a Toscana) até o meu destino. Gosto de sonhar.
No fim de semana xamânico, dancei ao som do tambor. Experimentei a medicina do cacau. Andei na floresta fechada. Deslizei no barro. Entrei no riacho de pedras que cortavam meu pé que não pisa nunca na terra. Gritei para exorcizar medos. Mas fui cautelosa com o Wachuma.
Testemunhei o renascimento psicodélico do qual o Brasil é protagonista, como mostram os pesquisadores Sidarta Ribeiro e Luís Fernando Tófoli. A onda da contracultura da década de 1960 voltou. As plantas que os povos originários usam há milênios são consideradas tecnologias de cura. A tradição indígena ensina. A experiência lúdica me liga ao emocional que tento entender.
Estética
Leio que o lar lúdico é uma tendência até na decoração, pede objetos inusitados e estampas coloridas. Previsão do Pinterest para 2026. Derrapo no desnecessário que me ajuda a embelezar a vida e seguir em frente. A estética sempre presente.
Da decoração para o cinema. Anoto o nome do novo filme de Karim Ainouz para conhecer os personagens femininos em Rosebush Pruning (Poda de roseiras) e a “anatomia dos tipos masculinos venenosos com quem elas convivem”.
A mesa partilhada é o melhor de tudo

Sweet Candy / Foto: Jussara Voss
Saio da floresta e entro na festa. No dia seguinte à imersão festejo a entrada do Ano Novo Chinês. O chamado Ano do Cavalo de Fogo só acontece a cada 60 anos. É um dos signos mais intensos, rebeldes e transformadores do zodíaco chinês. “Sol, ação, galope, movimentos rápidos, paixão, liberdade, e às vezes, caos. Tudo acontece ao mesmo tempo”. Leio Kaitlyn Kaerhart um pouco assustada. Tenho a impressão de que antecipei as previsões. Que venham os novos começos, projetos e aventuras.
A comemoração do novo ano aconteceu na casa da chinesa Sweet Candy. Li (seu nome chinês) está há 11 anos no Brasil e adora cozinhar. Aprendeu com a mãe dela e fez um banquete para receber o pequeno grupo. O convite dizia: cozinha aberta às 18h, jantar às 20h. Teria aprendido mais se tivesse visto isso. Quando ela nos recebeu, a China já comemorava o Ano Novo e nós comemoramos aqui com ela.

Foto: Jussara Voss
Candy fez questão de compartilhar a sua cultura e o melhor da culinária chinesa. Frutos do mar, tofu, frango, carne vermelha, inclusive pato, fermentados, verduras, sabores agridoce, 11 pratos, além das entradas exóticas, como pé de galinha, algas, fígado, moela e até castanha portuguesa. Sem família no Brasil, reuniu amigos porque na China é assim. Não importa o que você esteja fazendo, você larga tudo de onde estiver e vai se reunir com a família em volta da mesa. “Jantar não pode faltar”. A língua em comum é a língua universal do sabor e do compartilhamento.
Terça-feira de carnaval. Acordo com uma pressão na garganta. Sinceramente, não sei se é uma dor de garganta que quer se instalar, uma revolta da tireoide (a troca do medicamento de uso contínuo que escondi da endocrinologista), ou um acúmulo de palavras que nunca são ditas. Ao pensar no exorcismo dos medos na floresta, no riacho de pedras que machucaram meus pés, no compartilhamento de tantas histórias tristes e depois na alegria de testemunhar a festa da esperança, no acolhimento da Candy e dos amigos, me vem o choro. Faltava chorar, desmanchar a imagem da perfeição, que me constitui.
Entra o samba do Chico Buarque:
“Quem me vê sempre parado, distante / Garante que eu não sei sambar / […] Mas eu guardo a minha dor / Pra quando o carnaval chegar.”
E foi assim, em pleno carnaval, que a vida misturou tudo. Eu me entreguei. Candy me prometeu outras experiências. Eu aproveitei e pedi uma receita. Com vocês a “salada colorida” dela, “para colorir a vida”.

🥗 Salada de 7 Cores (Salada de Macarrão de Batata-doce)
Ingredientes
- 200 g de macarrão de batata-doce
- Pepino fatiado
- Cenoura fatiada
- Repolho ralado
- Sunomono (asomono)
- Rabanete agridoce
- Pimentão vermelho fatiado
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Molho
- 1 colher de chá de óleo de gergelim
- 5 colheres de sopa de shoyu
- 2 colheres de sopa de vinagre balsâmico
- 1 colher de chá de pasta de gergelim
- 1 colher de chá de açúcar
Misture todos os ingredientes do molho e mexa bem até ficar homogêneo.
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Pedi com a receita a história e o significado da salada:
“A Salada de 7 Cores simboliza sorte e prosperidade para o Ano Novo. As cores representam abundância, harmonia e bons desejos para o novo ciclo. Quando o molho é colocado e misturado à salada, esse gesto simboliza a união das energias e o movimento da prosperidade — como se estivéssemos “misturando” mais oportunidades para criar riqueza e sucesso no ano que começa. É um prato tradicional de origem chinesa, com um significado muito especial e auspicioso”.
P.S.
É fácil encontrar o macarrão de batata doce. Em Curitiba, no Mercado Municipal.
Restaurante da Candy:
Ji Xiang
Endereço: Rua Natal 1155, Cajuru (dentro de supermercado Condor)
吉祥 (Jíxiáng), em português significa:
“Boa sorte”; “Felicidade e prosperidade”.
Expressão usada na cultura chinesa, principalmente no Ano Novo Chinês, para desejar sorte, sucesso e prosperidade.
吉祥如意 (Jíxiáng Rúyì) → “Que tudo seja como você deseja, com muita sorte”.
吉祥安康 → “Boa sorte e saúde”!
Para todos nós, até o próximo.