A balada ao meio-dia que une dança, gastronomia e impacto social
Era 2017 ou 2018, não lembro exatamente, quando descobri que o Club Franz, em Berlim, promovia uma balada no horário do almoço, durante a semana. Novidadeira e amante da dança, não tive dúvidas: precisava reproduzir a ideia aqui. Reuni parceiros, Luiz Milek, Lucas Correia, Deibd Rodrigues e o dj André Gentil. Estava tudo pronto para a estreia no Coletivo Alimentar, mas a pandemia chegou e arquivou o plano.
Passado o período de reclusão, pensei em retomar a ideia. O Coletivo havia fechado e nas minhas tentativas só olhares desconfiados e vagos comentários. Nada que passasse de um “que ideia bacana”.
Abalada pelos reflexos daqueles anos (o descaso do governo, o sofrimento e as perdas) eu precisava de ânimo. Foi quando Andréa Sorgenfrei me deu o norte, “elabore um projeto e encontre uma produtora”. Era isso.
Pouco antes, em 2024, enquanto celebrava com amigos o lançamento do meu livro de crônicas de viagem sobre a busca da refeição inesquecível, o Juro que comi, alguém perguntou:
– E agora, Jussara, o que vai fazer?
– Quero fazer aqui a balada ao meio-dia e reativar a Gastromotiva em Curitiba, respondi.
As formações profissionais da ONG, criada há 20 anos pelo chef e empreendedor social David Hertz, haviam sido interrompidas na pandemia, quando os esforços se voltaram às cozinhas solidárias. Foram criadas mais de 160 em todo o Brasil.
– Então alguém respondeu: ah, teremos o “juro que danço”.
O nome, que surgiu por acaso (ninguém lembra quem falou naquela noite), virou marca registrada. E, no final de 2024, veio o insight, unir a ideia de dançar ao propósito de destinar o lucro para a Gastromotiva.
Sonho coletivo
Na fila de autógrafos em um evento, seduzi o empresário, publicitário e idealista, fundador da Social Ideias, Maurício Ramos, para abraçar a ideia do retorno da ONG aqui. E encontrei a produtora que faltava, a Nazdarovia, de Dani Volcov e Ale Vianna. Pronto.
Mesmo sem patrocínio, lançamo-nos ao sonho (que naquele momento já era de todos). Em 2025, realizamos três edições. Foi emocionante ver mais de 200 pessoas dançando em plena luz do dia.
Percebi que o sucesso do Juro que danço (além do esforço de quem faz e apoia, chefs e empresas) reside no “afeto da alegria”, traduzido em potência de existir pelo filósofo Baruch Spinoza. Ele escreveu que nossa vida se distribui entre as forças que crescem em nós por meio tanto do afeto da alegria quanto da tristeza. “Se há algo de racional em nossa vida social, são os afetos”.
É assim que nasce a nossa intenção: ampliar o afeto da alegria – que é amor e amizade. Uma tentativa de deixar o mundo um pouco melhor. Se acreditarmos nisso, ganhamos sentido para a nossa existência. Gilberto Gil me ajuda: “Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”.

A dança e a causa
Conheci a Gastromotiva em 2015, quando coordenava o projeto Gastronomia Paraná. Encantei-me com o poder da comida e o trabalho de chefs em impulsionar o turismo e a economia de uma cidade, mas também me inquietei com a realidade da insegurança alimentar, seja grave (fome), moderada ou leve.
Quando soube que um chef curitibano havia fundado a Gastromotiva para incluir pessoas pela gastronomia, tratei de trazê-lo para cá. Ficamos amigos. Viabilizamos formações profissionais para mais de 600 alunos. Agora, unimos esse legado ao esforço de reativar ações sociais aqui por meio do Juro que danço.
Na próxima terça-feira, 31 de março, teremos a 4a edição da balada, na Soma Galeria de Arte. Seguimos uma tendência internacional de ressignificar o lazer, combinando bem estar, cultura e gastronomia, em uma pausa solidária das 12 às 14h. O projeto é itinerante e sem periodicidade fixa. Exploramos locais da cidade e convidamos chefs para cozinhar.
O lucro fortalece as ações sociais da Gastromotiva. No ano passado, reativamos a padaria comunitária da comunidade Nova Esperança, em Campo Magro, e oferecemos uma oficina da Gastromotiva em parceria com a PUC, parceira da ONG.
Os ingressos estão no Sympla. Para nos acompanhar, siga o @juroquedanco